A nova sociedade dos aprendentes

Em 1996, em Portugal, surgiu uma obra sobre literacia (Benavente, 1996), com enquadramento teórico-metodológico do Estudo Nacional da Literacia, análises monográficas e evidências das implicações sociais. Neste último item, afirma-se o seguinte: “Num mundo em que a informação e o conhecimento estão a constituir-se em fatores decisivamente estruturantes da vida social, a todos os níveis, e em que variadíssimos problemas e inter-relacionamentos humanos tendem a estabelecer-se, de modos muito concretos e imediatos, à escala planetária, a capacidade de usar informação escrita, de forma generalizada, tornou-se – passe o paradoxo aparente da expressão – banalmente vital.” (Benavente: 396). Ora, tendo o conceito de literacia sido alargado para literacias, quão importante é e será o conceito de literacia digital, neste início de século, em que a educação é/será um tesouro a descobrir (Delors, 1996). E é sobre este e o seu desenvolvimento/aplicabilidade nos mundos real e virtual que incide o tema 1, dado que se colocam em questão as competências digitais para professores, sendo as palavras-chave "pesquisar, selecionar  e partilhar". Desengane-se quem pensa que o surgimento da Internet tornou o ser humano mais solitário e mais individualista! Talvez, num primeiro assombro perante a panóplia de conhecimento e de ferramentas digitais, tal tenha acontecido, mas, como refere Roberto Carneiro (2005: 12-13), surgiu a "emergência decorrente do acesso à rede em construir habilidades adaptadas a geri-la como potencial de conhecimento".

De facto, a educação ganhou e continuará a ganhar muito com o uso das ferramentas eletrónicas. E, se, outrora, a WEB 1.0 foi suficiente, atualmente usam-se a WEB 2.0 e até a WEB 3.0, falando-se já em WEB 4.0. Nesta e desta evolução, a Escola não se poderá alhear e muito menos a Biblioteca Escolar (BE), que evoluiu, tendo deixado para trás os acervos fechados e a ausência de ficção e de jornais nesse espaço. Aliás, numa primeira análise, Carneiro compara a Internet a uma biblioteca escolar ou  a uma biblioteca universitária, onde se encontrava conhecimento. Agora, novas competências lhe são atribuídas e novos papéis se esperam do Professor Bibliotecário (PB) e da sua equipa, assim como de qualquer professor. Creio que, neste ponto em que nos encontramos, qualquer professor poderá encontrar no PB e na sua equipa a ajuda para a aprendizagem de novas habilidades ligadas às novas tecnologias e à aquisição de novas competências, inclusive a distinção entre trabalho cooperativo  e trabalho colaborativo. É este último que transformará a comunidade de sujeitos em comunidade de aprendizagem, os aprendentes que necessitarão de atualizar as suas competências ao longo da vida, participando na construção do conhecimento. É que a evolução tecnológica não para e, tal como a informação "brota" da Internet, também é preciso saber selecioná-la, citá-la e usá-la. Ainda há pouco tempo, por exemplo, a  biblioteca era a Biblioteca 1.0, com coleções e serviços num ambiente on-line e as palavras-chave eram “buscar” e “acesso”; atualmente, pretende-se e tenta-se que seja a Biblioteca 2.0 (Miller, 2005), a “Web 2.0 +Biblioteca”, a ser detentora de um pacote completo de serviços de biblioteca por meio eletrónico, cujas palavras-chave são “encontrar” e “partilha”. Ela própria é um mashup (Maness, 2007), pois é formada por uma mescla de blogues, wikis, Streaming Media, agregadores de conteúdo (RSS Feeds), mensagens instantâneas e redes sociais, em que o utilizador é participativo, está ligado a outros utilizadores, participa colaborativamente na criação/atualização de conteúdos, fazendo parte da nova Era Digital. Em paralelo, a nova Sociedade da Informação, também designada por Sociedade do Conhecimento e da Aprendizagem (Pozo, 2002, em Carvalho, 2009), ao dispor desta plataforma que aproveita a inteligência coletiva (Lévy, 1999), em qualquer momento e em qualquer lugar, apresenta diversas ferramentas.

Através de várias leituras, as indicadas e outras, confirmamos que a WEB 2.0 é só uma das muitas mudanças que o Presente-Futuro trará. Como diz Maness (2005), «Neste “Beta perpétuo” (O’Reilly, 2005), qualquer estabilidade além da aceitação de instabilidade é insuficiente» (p. 50), daí que as potencialidades desta Web tragam também constrangimentos na dinâmica da BE, cuja missão deve ser centrada no utilizador, no desenvolvimento da sua competência informacional, na sua formação como leitor, na promoção de hábitos de leitura, na interação com o utilizador (de forma síncrona ou assíncrona),na produção de materiais didáticos e de apoio ao estudo, na potencialização de novos recursos interativos de informação e comunicação, no apoio inovador que pode e deve prestar à comunidade, adaptando os seus serviços ao utilizador e implicando que haja trabalho conjunto entre o PB, os outros professores e os alunos (Furtado: 143 -144, de acordo com o Programa Rede de Bibliotecas Escolares, em Portugal), para dotá-los de sabedoria digital (digital wisdom) de que fala Prensky (2009). Deste modo, a BE combate a iliteracia e a info-exclusão, que constituem, depois do analfabetismo, os maiores obstáculos à emancipação social e tecnológica das populações, devendo promover a igualdade no acesso e, agora, igualmente, na construção da informação. Por vezes, surgiram projetos que já apostavam nisso, por exemplo, o projeto Literacia Digital sem Fronteiras, que denominava as bibliotecas como agências multifacetadas de informação-educação-cultura. Mais uma vez, reitero a importância do PB que pode ser na escola a âncora para a promoção e a mediação das novas tecnologias, pois não se pode ser completamente imigrante digital, sendo necessário ser um gestor de mudança, recetivo à Era Digital! E, como diz, Pierre Lévy (1997), a "World Wide Web é um fluxo", por isso "Temos de nos habituar a esta profusão e a esta desordem", sabendo selecionar recursos capazes de servirem os objetivos que perseguimos; não plagiar trabalhos, mas citá-los corretamente, no caso de os usar; partilhar e trabalhar colaborativamente, não sem esquecer que é preciso não se tornar um Web dependente e aplicar isso no novo papel que se espera que qualquer professor assuma na atual Sociedade de Informação e do Conhecimento.

Referências bibliográficas (para além dos docs. indicados nesta formação):

Benavente, Ana, (1996). A Literacia em Portugal – Resultados de uma Pesquisa Extensiva e Monográfica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian

Carvalho, Ana Amélia, (2008). Manual de Ferramentas da Web 2.0 para Professores. Lisboa: MEC e DCIDC

Furtado, Cassia Cordeiro, (2009). Bibliotecas Escolares e Web 2.0: Revisão da literatura sobre Brasil e Portugal. [On-line]. Retirado de http://eleiria.unisla.pt/1112/pluginfile.php/11122/mod_resource/content/1/BE_e_web2_revis_lite.pdfv

Maness, Jack M. (2007).Teoria da Biblioteca 2.0: Web 2.0 e suas implicações para as Bibliotecas (G. C. L. Nascimento, G. H. N. Neto, Trad.). [On-line]. Retirado de http://eleiria.unisla.pt /1112/pluginfile.php/11123/mod_resource/content/1/bib_web2_implicacoes.pdf





Comentários

  • Simões há 1774 dias

    Interessante. Seja como for, com aspetos positivos e aspetos negativos, constituirá um marco histórico. A História não volta atrás. #ecoimooc14, #ecoimooc14t1