A escol(h)a

Sim, é importante ter Velhos do Restelo porque é fundamental saber combatê-los. Não porque não haja um eco de razão no que dizem, mas porque a razão que têm foca-se na origem errada e percebê-lo é avançar. 

O problema não são as novas tecnologias, tal como o problema não foi avançarmos com os Descobrimentos. O problema é não assumirmos a mudança como a fonte do que se pode fazer melhor e procurarmos nela um buraco negro que suga tudo e todos à volta.

A Internet come o cérebro e a criatividade.

Pois come, o de quem não cultivou o cérebro e a criatividade anteriormente.

As tecnologias permitem o plágio descarado.

Pois permite. A fotocopiadora também, a mão, um lápis e uma caneta também, não é nada de novo.

As TIC são assustadoras para quem nunca conviveu com elas.

Pois são, eu também tenho medo de uma máquina de costura, de um motosserra, e da máquina de soldar lá de casa porque nunca as usei com a devida e merecida atenção, andei sempre a fazer tentativas sem continuidade.

Os multimedia absorvem demasiado tempo e dinheiro em proporção àquilo que deles se pode retirar.

Claro que sim, principalmente se não souber o que de lá quero tirar.

De facto as ferramentas digitais são uma ameaça: permitem que as pessoas trabalhem colaborativamente (e eu que trabalhava tão bem sozinha); permitem ter acesso a praticamente todo o conhecimento (e a mim que me chegava bem o da biblioteca lá ao pé de casa); permitem-me a mim, leiga, trabalhar com ferramentas acessíveis que me ajudam a dar um aspeto profissional e artístico às coisas (e a mim que me chegava a tesoura e a cola); permitem-me rapidamente colocar em contacto alunos de diferentes nacionalidades (para quê... já me chega ter que aturar os meus alunos); permite-me dar asas à criatividade - à minha e à dos meus alunos (ui... isso é que não, isso não é conhecimento controlado por definições dogmáticas!!!); permite-me...  (nem pensar...)

A questão aqui, tal como noutros casos paradigmáticos da nossa evolução, é que primeiro é preciso dar às pessoas ferramentas pessoais, competências e isso faz-se apoiando e orientando enquanto se utilizam as ferramentas tecnológicas novas que vão aparecendo para que o pensamento crítico sobre elas cresça com elas.

A dificuldade pode estar em que quem deve dar esse apoio se possa sentir desprotegida e desconfortável no que diz respeito a essas ferramentas. Mas e as competências que são universais e transversais ao tempo (a criatividade, o espírito crítico, a exploração para construir conhecimento, a noção de plágio...) essas não dependem das TIC, mas as TIC dependem delas!!!

Ser ou não Velho do Restelo é uma questão de esco(h)la! Por isso sim, estes temas são muito relevantes...

Comentários

  • Célia Mafalda há 1627 dias

    Ao ler estas palavras, parecia que estava a ouvir alguns colegas que sempre que se trata de inovar, de intervir, de agir e de se formar, "arranjam" mil e um argumentos para não o fazerem. Realmente, nem sempre é fácil gerir vida profissional com vida pessoal, mas se não conhecermos o que as novas tecnologias nos ofertam, não poderemos opinar sobre isso. O que vale é que nas escolas não há só Velhos do Restelo, mas também insatisfeitos com o que conhecem e que querem saber mais, partilhar, trabalhar colaborativamente, tal como nós - somos mais a voz de Fernando Pessoa na sua obra " Mensagem" - há que ser insatisfeito.

    #ecoimooc14, #ecoimooc14t1

  • Leideana há 1627 dias

    Colega Ana,

    Que boa a sua reflexão, interessante este teu jeito paradoxal de escrever.

    De fato, o que estamos a perceber é que a escola não evoluiu tão rapidamente quanto as redes e estão os formadores ainda em estado de susto; saimos todos da zona de conforto (Ramiro Sápiras, 2006), como tão bem se fala na Administração.

    A escola, o professor os pais precisão se recompor do susto, enfrentar o novo (as novas tecnologias da informação e comunicação) e incluir este repertório no processo educativo, livrando-se do preconceito e dando lugar ao conhecimento do uso das TICs.

    Assim, realço o que você afirmou logo acima sobre as competências que tratam da criatividade, capacidade crítica, dentre outras, universais e transversais ao tempo, prepoderarão, pois as TICs dependem delas.

    Leideana Bacurau #ecoimooc14t0

  • Amélia Mungoi há 1626 dias

     Olá Ana, quero cometnat uma frase sua " As tiques são assustadoras para quem nunca conviveu com elas" Concordo plenamente com você.  Eu   pessoalmente, já vivi experiências dolorosas  devido a falta de  domínio das tic, começando mesmo pela dificuldade no manusemento das ferramentas mais básicas do computar que nem escrever em word, por falta da prática, já levei uma hora de tempo para digitar um texto de só uma página. Por causa da necessidade, já tive situações em que me fui obrigada a mexer em ferramentas novas, como blogs, skype, email, senti a mesma dificuldade e fiquei muito strassada por não conseguir resolver os meus problemas na hora em que precisava. Quase que ficava traumatizada com estas coisas... Lol.

  • Artur Coelho há 1626 dias

    kudos, @na. é mesmo isto. tememos o que desconhecemos, o que não podemos controlar. o real impacto da tecnologia está no ampliar do espectro de possibilidades do que podemos fazer, e isso muda-nos, de formas mais ou menos subtis. algo que assusta sectores mais conservadores da sociedade, que temem, com razão, a erosão da sua base de poder e o serem tornadas irrelevantes pelo fluxo de novas ideias. se repararmos bem, a educação faz o mesmo. amplia o espectro de possibilidades. não é por acaso que os sectores mais conservadores são tão adeptos do back do basics, forma pouco elegante de tentar voltar a meter o génio dentro da lamparina, e minorar o impacto de se ter uma população alargada com bases de cultura  e ciência. 

     

    (daqui: http://intergalacticrobot.blogspot.pt/2014/04/visoes-de-utopia-percepcoes-sobre.html)

    adoro este gráfico. é do Second Machine Age, do Brynjolsson e McAfee, e mostra bem o real progresso humano desde que a ciência e tecnologia se tornaram preponderantes. Algo impossível de atingir sem educação, claro. o conhecimento não cai do céu. note-se que o disparo no índice de desenvolvimento humano se dá com a revolução industrial. não estamos aqui a falar de economia ou riqueza, mas sim de desenvolvimento: acesso ao conhecimento, melhores condições de vida, saúde, esperança no futuro. é por isto que é tão irritante aturar velhos do restelo (lusófonos não portugueses que não estejam a perceber esta referência: o tio google explica). têm mesmo a certeza que essas eras mais simples de que falam  e admiram eram assim tão boas? será que aquilo que estamos a perder com a natural evolução dos sistemas sociais valeria mesmo a pena manter? note-se que não há aqui respostas de dualidade absoluta. ainda bem, somos humanos e pensamos todos de forma diferente. 

    (claro, recomento o livro. se bem que suspeito que boa parte dos participantes neste mooc que o leiam poderão sentir um súbito impulso de fugir para uma montanha e passar o resto da vida em contemplação mística: https://www.goodreads.com/book/show/17986396-the-second-machine-age