Artefacto Digital 1

A experiência a seguir apresentada foi recuperada – e atualizada, sobretudo ao nível das estratégias/recursos e materiais de ensino e aprendizagem – a partir da planificação de um projeto pedagógico, no âmbito da participação de uma turma no programa Parlamento dos Jovens, há já alguns anos, sob a temática «Alimentação». Tentar refletir na proposta inicial, constante do projeto curricular da turma, a evolução das TIC, da internet e dos média permitiu comprovar a obrigatoriedade de alterações profundas e determinantes em todo o processo então planificado.

Introdução
De acordo com Joyce e Weil (citados por Gaspar et al., n.d.: 3), o conhecimento é consequência do «modo diferente de enfocar a experiência, reinterpretando-a continuamente em forma de princípios e conceitos eficazes», e implica as emoções do aprendente e a interação e dinâmica do grupo. Nesta visão do ensino e da aprendizagem, além de novos conhecimentos, o estudante aprende também a mobilizá-los, numa perspetiva de partilha, em detrimento da competitividade individualista, e a discutir e aceitar opiniões, num processo que se pretende democrático e de enriquecimento pessoal. Portanto, as competências no âmbito da literacia digital são indispensáveis ao aprendente do século XXI, devendo obrigatoriamente estar presentes nos contextos formais de aprendizagem (Costa, 2009; Hague & Williamson, 2009).

CENÁRIO DE ENSINO E APRENDIZAGEM
a) Conteúdos a explorar
Pela sua transversalidade e consequentes possibilidades de articulação curricular, propõe-se a temática complexa dos organismos geneticamente modificados e da produção de alimentos transgénicos, numa abordagem social, científica e bioética, apontando-se como público-alvo turmas de 7.º/ 8.º ano e, como motor preferencial, a disciplina de Ciências Naturais .

b) Competências a desenvolver nos alunos
- Ler e usar criticamente os média, as novas redes, plataformas e ferramentas digitais

c) Objetivos de aprendizagem
- Incentivar a pesquisa criteriosa na internet
- Utilizar as redes sociais para interagir, no âmbito da partilha, mobilização e produção de conhecimento
- Refletir sobre as potencialidades, benefícios e desvantagens deste tipo de ferramentas
- Contribuir para um uso seguro e crítico das redes sociais
- Fomentar a cidadania ativa através da participação dos alunos

d) Ferramentas tecnológicas mobilizadas
- Motores de busca (ex.: Google)
- Redes sociais (ex.: facebook)
- Site youtube (carregamento e partilha de vídeos em formato digital)
- Skype, e-mail e chat
- Programa movie maker

e) Como operacionalizar o uso das ferramentas tecnológicas
O trabalho da turma será dividido em 6 fases distintas:
Fase 1 – Apresentação do problema: os alunos são convidados a visionar imagens e pequenos vídeos alusivos ao uso dos transgénicos (endereços eletrónicos fornecidos – youtube…), onde se deparam com vários argumentos a favor e contra a sua utilização. Compete-lhes, orientados pelo professor, identificar pistas e temáticas, articulando-as com conhecimentos próprios/coletivos.
Fase 2 – Síntese e organização de temas/problemas a trabalhar: os alunos são conduzidos, na breve abordagem desta temática multifacetada, a consciencializarem-se acerca dos valores éticos, sociais e científicos em causa e dos interesses e conflitos que suscitam. São também orientados na constituição de grupos de trabalho, cujos elementos integrarão grupos fechados (pelo menos ao longo do processo) na rede social facebook, a fim de analisarem e resolverem os problemas propostos (a cada grupo cabe um problema), para posterior apresentação à turma e consequente debate. Poderão utilizar também o email o o skype para comunicarem.
Os problemas apresentados são os seguintes:
• Considerem-se uma equipa de cientistas que está a estudar a questão dos transgénicos. Expliquem ao mundo, num curto filme (com utilização do movie maker ou similar), a importância do vosso trabalho.
• Se as populações chinesa e indiana consumirem a mesma quantidade de carne que os europeus (ou os americanos), dentro de pouco tempo, não conseguiremos alimentar a população mundial. Vocês são agricultores e têm uma exploração de gado, em regime intensivo, com recurso a alimentos concentrados, feitos à base de cereais, e já não têm alimento para os animais, a não ser que recorram a sementes transgénicas. Que decisões vão tomar? Porquê? Comuniquem ao mundo, num curto filme (com utilização do movie maker ou similar) as vossas decisões e respetivas fundamentações.
• Os transgénicos têm genes de vírus e de bactérias incluídos artificialmente nos seus genomas, que lhes permitem resistir a parasitas, crescer mais rapidamente, etc., mas o destino destes genes, quando os ingerimos, ainda permanece uma incógnita. Face às necessidades alimentares crescentes e aos perigos possíveis para a saúde humana, imaginem que são políticos sociais preocupados com a humanidade. Concordam que se utilizem estas técnicas em produtos alimentares? Comuniquem ao mundo, num curto filme (com utilização do movie maker ou similar) as vossas opiniões e respetivas fundamentações.
• Imaginem-se investigadores da biodiversidade numa região agrícola de minifúndio. Muitos proprietários locais, fruto de uma procura crescente de cereais, resolvem começar a comprar terrenos e a produzir em grande escala milho e soja transgénicos, para o comércio mundial. A paisagem começa a transformar-se em monocultura. Façam uma sessão de esclarecimento aos habitantes de uma aldeia que está a ser praticamente comprada por um grande proprietário que promete a todos emprego futuro. Num curto filme (com utilização do movie maker ou similar) exponham as vossas razões e respetivas fundamentações
Fase 3 – Organização do trabalho de grupo:
Formação do grupo e eleição de um moderador. Planificação da pesquisa tendo em conta o(s) problema(s), o que já sabem e o que falta saber e as fontes em que irão procurar informação, bem como as ferramentas a utilizar. Distribuição de tarefas (quem e o que fazer), para além da de moderador. Apreciação, discussão e articulação da informação recolhida.
Fase 4 – Formulação e reformulação de hipóteses para o(s) problema(s) em análise. É a fase da mobilização e transposição de conhecimentos no sentido de encontrar soluções possíveis para o(s) problema(s) identificado(s).
Fase 5 – Apresentação: cada grupo apresenta o seu trabalho à turma e ao professor, tendo em conta a participação de todos (filme, descrição do percurso e conclusões a que chegaram). No final, o professor comentará os trabalhos de cada grupo, quanto à coerência e pertinência da mensagem, qualidade do produto obtido e competências que os alunos demonstraram ter mobilizado/desenvolvido.
Fase 6 – Debate final acerca da temática, em que os alunos apresentam e discutem as suas conclusões de forma democrática, ao estilo parlamentar. Auto e heteroavaliação dos trabalhos e debate. No final, o professor comentará a discussão da turma, quanto ao valor das conclusões conjuntas obtidas e quanto às competências coletivas demonstradas, salientando alguns pontos (dos processos e dos produtos) que tenham sido deixados em aberto.

Considerações finais
Do ponto de vista de Arends (2008: 382), a aprendizagem baseada em problemas desenvolve competências, nomeadamente de pesquisa e de resolução de problemas; sociais, associadas aos papéis de adulto; e de aprendizagem independente. Parece-me que tal é essencial na articulação da aprendizagem formal escolar e da atividade mental mais prática, fora do contexto escolar e ao longo da vida; e que nunca como agora foi tão possível e necessário preparar experiências de aprendizagem verosímeis, úteis, atuais e percecionáveis pelos alunos como motivantes.

Referências Bibliográficas
Arends, R.I. (2008). Aprender a Ensinar. Madrid: McGraw-Hill Interamericana de España, S.A.U..
Costa, F. (coord.) (2008 e 2009). Competências TIC. Estudo de Implementação. Vols. I e II. Lisboa: GEPE-Ministério da Educação.
Gaspar, M. I., Pereira, A., Oliveira, I. & Teixeira, A. (n.d.). Exemplos de modelos de ensino no paradigma interpessoal. Lisboa: Universidade Aberta.
Hague, C. & Williamson, B. (2009). Digital participation, digital literacy, and school subjects: A review of the policies, literature and evidence. Bristol: Futurelab.