MANIFESTO "TRAVESSIA ESPIRAL" - A PROPOSTA DE UMA APRENDIZAGEM COOPERATIVA / COLABORATIVA REAL NA USP

MANIFESTO "TRAVESSIA ESPIRAL"

A Antropofagia: a transfiguração do Tabu em totem. O matriarcado. O corpo.


A pesquisa tem por objetivo explorar em que as linguagens ritualística e artística se convergem, resultando num ritual coletivo. Os participantes terão a possibilidade de realizar uma Travessia, que os permita retornar transformados ao cotidiano (Espiral). Dessa forma, é fundamental que o público se coloque em Sintonia Ativa.

Consideramos Sintonia Ativa o estado performativo também por parte do público, no qual ele deixa de ser espectador passivo, somente contemplando a ação dos atores, e passa a agir como elemento fundamental do ritual.

Posto que, atualmente, a nossa sociedade – reprimida e repressora – castra os nossos instintos essenciais, vemos a necessidade de retomar as nossas raízes ritualísticas. Queremos um ritual diferente da maioria dos atuais, os quais reforçam os aspectos que gangrenam a sociedade. Buscamos um rito que, além de nos reconectar à Natureza, como o Candomblé, a Umbanda e os cultos indígenas, nos liberte dessas amarras sociais.

Desejamos fazer uma Ode não a um deus uno cristão, não a uma única religião, mas sim a entidades que simbolizam e incitam a libertação, como Baco, Eros, Pomba Gira, Exu, Tupã, Ibejis, entre outros.

Para que haja a dita reconexão com a Natureza, o nosso ritual terá como princípio fundamental os quatro Elementos: Água, Fogo, Ar, Terra. A finalidade: religar-se e libertar-se.

Pesquisaremos a noção de inconsciente coletivo de Jung, buscando compreender a manifestação dos principais arquétipos e fazer uso deles no rito.

Pretendemos usar elementos do circo, porém não de modo contemplativo e virtuosístico, e sim como linguagem, em que o público, em estado de Sintonia Ativa, tem a possibilidade de experienciar e investigar diferentes objetos circenses, descobrindo como isso o afeta e o move ritualisticamente.

Outra linguagem de que pretendemos fazer uso é a body art. Retomando as origens tribais, nós pretendemos buscar a união dos Elementos e dos Arquétipos. Nesse sentido, vamos pesquisar maneiras do público também se despir das suas couraças pessoais, procurando para ele vestimentas propícias ao ritual. A partir de então, o público tem a possibilidade de se colocar em Sintonia Ativa e decidir se se despe fisicamente e se pinta (e como se pinta), ou seja, ele tem liberdade para escolher o seu grau de envolvimento de acordo com suas necessidades e vontades.

 O Processo

O processo se dará de duas formas diferentes: Espaço de Sintonia (ES) e Espaço de Sintonia Compartilhada (ESC). A primeira se refere a experimentos internos ao grupo, de descoberta da ritualidade por diferentes vias, que serão especificadas abaixo. Já o ESP se dará no encontro com o público, a partir do que for descoberto no ES. A proposta é realizar diversos ESCs, com a finalidade de pesquisar maneiras de efetiva integração com o público, instigando-o a se colocar em estado de Sintonia Ativa.

Dentro do ES, buscaremos lugares os mais diversos, a fim de despertar instintos viscerais, os quais deverão nos reconectar aos quatro Elementos essenciais. Buscaremos assim entender cada um em nossos corpos. As vivências escolhidas tentam abarcar o Fogo, a Água, o Ar e a Terra: praia, floresta, cachoeira, mangue entre outros.

A tentativa é carregarmos essas experiências nos nossos corpos de volta à USP, onde pesquisaremos diferentes espaços. Em cada um deles, experimentaremos os rituais das vivências e observaremos como reverberam em nossos corpos nesse espaço. Paralelamente, observaremos as diferentes necessidades de cada lugar da USP e como elas influenciam na ação.

Ao longo dos ESs e ESCs, esperamos descobrir o local propício para a realização do ritual final.

 

 Conclusão

Já que o ritual deveria ser, por essência, propiciador de transcendência, renascimento, transformação, esperamos conquistar esse lugar em que as pessoas possam realizar a Travessia Espiral. O caminho parte do estado de amarras cotidianas, atravessa o estado libertário de celebração ritualística para retornar à vida cotidiana de forma transformadora, num movimento espiral.

 

Bibliografia

 ARANTES, Urias Corrêa. Artaud – Teatro e Cultura. Campinas: Editora da Unicamp, 1988.

ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago.

ARTAUD, Antonin. O Teatro e seu Duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

______. Linguagem e Vida. São Paulo: Perspectiva, 2008.

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

CAVALCANTI, Tito R. de A. Jung. São Paulo: Publifolha, 2009.

FERNANDES, Ulysses e HERRERO, Marina. Jogos e Brincadeiras – Do Povo Kalapalo. São Paulo: Edições SESC, 2009.

FORDHAM, Frieda. Introdução à Psicologia de Jung. São Paulo: Verbo, 1978.

ESSLIN, Martin. Artaud. São Paulo: Edusp, 1978.

JUNG, Carl G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

______. Estudos sobre Psicologia Analítica. Petrópolis: Vozes, 1978.

OXALÁ, Adilson de. Igbadu – A Cabeça da Existência. Rio de Janeiro: Pallas, 2010.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

QUILICI, Cassiano Sydow. Antonin Artaud – Teatro e Ritual. São Paulo: Annablume, 2004.

SILVEIRA, Nise da. Encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009.

VEINTE, Siglo. Antonin Artaud – Cartas a Jean-Louis Barrault.  Nicaragua: El Gráfico Impressores, 1975.

VIRMAUX, Alain. Artaud e o Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1978.

 
Disponivel em:

https://travessiaespiral.wordpress.com/2012/05/21/manifesto-travessia-espiral/