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Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"

Por Amanda L há 1251 dias Comentários (7)

Em entrevista para a Revista Época em 2011, o escritor e semiólogo Umberto Eco, que faleceu este ano, deixou a seguinte contribuição - que partilho com voces.... Para pensarmos....

 

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco -
 Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet. 

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco -
 A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento. 

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
Eco -
 Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes. 

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco -
 Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar. 

 

Comentários

  • elvirarodrigues há 1251 dias

    Olá Colega Armanda,

    Tantos Ecos que o Humberto eco nos deixou... que a reflexão sobre conteúdos, como o que agora partilha nos façam "fazer o caminho" e aceitar os desafios.

    Abraço,

    Elvira Rodrigues

  • Amanda L há 1251 dias

    Verdade Elvira!!! Com certeza!!! Um abraço!!!

  • Pedro Ribeiro há 1251 dias

    Penso que estamos no caminho da teoria da filtragem com o big data.

  • Amanda L há 1251 dias

    Exatamente Pedro... Como disse Eco: Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet.Conhecer é filtrar. Obrigada por passar por aqui! Abraços!

  • Bruno Gonçalves há 1249 dias

    Concordo plenamente. O excesso de informação, por um lado faz-nos refletir e assumir uma posição face a determinada matéria, por outro pode contribuir para o esquecimento (pela abundância de informação).

    Hoje, todos nós, acabamos por ser uma estação de informação (muitas vezes inconscientes)!

  • lisipin há 1249 dias

    Algumas pessoas deveriam ser imortais. Obrigada, Amanda, por compartilhares a entrevista.

    Abraço, Lisiane

  • Amanda L há 1249 dias

    Bruno e Lisipin, fico feliz que esta entrevista tenha chamado a atenção de voces, positivamente! Obrigado pelos comentários e por passarem por aqui! Abraços!