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MONÓLOGO DE UM ESTUDANTE INFELIZ (vale a pena ler)

TEXTO: “MONÓLOGO DO ESTUDANTE INFELIZ

by Stephan M. Cory, University of Chicago 
January 1944 from "Childhood Education" (OBSERVEM A DATA)

“Não, eu não vou bem na escola. Esse é o meu segundo ano na 7ª série e sou muito maior do que os outros alunos. Entretanto, eles gostam de mim. Não falo muito em aula, mas fora de sala sei ensinar um mundo de coisas. Eles estão sempre me rodeando e isso compensa tudo o que acontece em sala.

Eu não sei por que os professores não gostam de mim. Na verdade, eles nunca acreditam que a gente sabe alguma coisa, a não ser que se possa dizer o nome do livro onde a gente aprendeu. Tenho vários livros lá em casa. Mas não costumo sentar e lê-los todos, como mandam a gente fazer na escola. Uso meus livros quando quero descobrir alguma coisa.

Por exemplo, quando a mãe compra algo de segunda mão, eu procuro no Catálogo da “Sears” ou da “Words” para dizer se ela foi tapeada ou não. Sei usar o índice rapidamente e encontrar tudo o que quero.

Mas, na escola, a gente tem de aprender tudo o que está no livro e eu não consigo guardar. Ano passado, fiquei na escola depois da aula, todo dia, durante duas semanas, tentando aprender os nomes dos presidentes. Claro que conhecia alguns como Washington, Jefferson, Lincoln. Mas é preciso saber os trinta, todos juntos e em ordem. E isso eu nunca sei.

Também não ligo muito, pois os meninos que aprendem os presidentes têm que aprender os vice depois. Estou na 7ª série pela segunda vez, mas a professora agora não está muito interessada nos presidentes.

Ela quer que a gente aprenda os nomes de todos os grandes inventores americanos. Acho que nunca conseguirei decorar nomes em História.

 Esse ano, comecei a aprender um pouco sobre caminhões porque meu tio tem três e disse que posso dirigir um quando fizer dezesseis anos. Já sei bastante sobre cavalo a vapor e marchas de vinte e seis marcas diferentes de caminhão, alguns a diesel. É gozado como os motores a diesel funcionam. Comecei a falar sobre eles com a professora de Ciências na quarta-feira passada, quando a bomba que a gente estava usando para obter o vácuo esquentou. Mas a professora disse que não via relação entre um motor a diesel e a nossa experiência sobre pressão do ar. Fiquei quieto. Mas os colegas parecem gostar. Levei quatro deles à garagem do meu tio e vimos o mecânico desmontar um enorme caminhão a diesel. Rapaz, como ele entende disso...

Eu também não sou forte em Geografia. Nesse ano, eles falam em Geografia Econômica. Durante toda a semana estudamos o que o Chile importa e exporta, mas não sei bulhufas. Talvez porque eu tenha faltado à aula... Motivo: o meu tio me levou em uma viagem a mais ou menos 200 milhas de distância. Trouxemos duas toneladas de mercadorias de Chicago. Meu tio dizia para aonde estávamos indo e eu tinha de indicar as estradas e as distâncias em milhas. Ele só dirigia o caminhão e virava à direita ou à esquerda quando eu mandava. Com foi bom!

Paramos sete vezes e dirigimos mais de quinhentas milhas ida e volta. Estou tentando calcular o óleo e o desgaste do caminhão para ver quanto ganhamos. Eu costumo fazer contas e escrever as cartas para todos os fazendeiros sobre porcos e bois trazidos. Houve apenas três erros em dezessetes cartas e, minha tia diz: só problemas de vírgulas. Se eu pudesse escrever composições bem, assim...

 Mas, outro dia, o assunto da composição na escola era: “O que uma rosa leva da primavera”. E não deu...

Também não dou para matemática. Parece que não consigo concentrar-me nos problemas. Um deles era assim: Se um poste telefônico com cinquenta e sete pés de comprimento cai atravessado em uma estrada de modo que dezessete pés sobram de um lado e quatorze de outro, qual a largura da estrada? Acho uma bobagem calcular a largura de estrada. Nem tentei responder, pois o problema também não dizia se o poste tinha caído reto ou torto.

 Não sou bom em Artes Plásticas. Todos nós fizemos um prendedor de vassoura e um segurador de livro. Os meus foram péssimos. Também, não me interessei. A mamãe nem usa vassoura desde que ganhou o aspirador de pó e todos os nossos livros estão dentro de uma estante com porta de vidro.

Quis fazer uma fechadura para o “trailer” do meu tio. Mas a professora não deixou, pois eu teria de trabalhar só com madeira. Assim, fiz essa parte de madeira na escola e o resto na garagem do meu tio. Ele disse que economizou mais ou menos dez dólares com meu presente.

Moral e Cívica também é fogo! Andei ficando depois da aula, tentando aprender os artigos da Constituição. A professora disse que só poderíamos ser bons cidadãos sabendo isso. E eu quero ser um bom cidadão. Mas detestava ficar depois da aula, porque um bando de meninos estava limpando o lote da esquina para fazer um ‘playground’ para as crianças do ‘Lar Metodista’. Eu até fiz um conjunto de barra, usando canos velhos. Conseguimos jornais velhos para fazer uma cerca de arame em volta do lote.

O papai disse que eu posso sair da escola quando fizer quinze anos. Estou doido para isso, porque há um mundo de coisas que eu quero aprender a fazer e já estou ficando velho.

Comentários

  • Elazir Cristina Boechat Dias Esposti há 773 dias

    Que texto maravilhoso! Amei!

    A escola podando os alunos! Um Lugar que deveria  ser usado para expandir os conhecimentos!

    Não esta muito diferente de hoje! Não é mesmo?

  • Maria João Spilker há 773 dias

    Este texto deixou-me triste, muito triste.

    E levou-me a ir buscar esta imagem:

  • Emilia há 773 dias

    Muito bem ilustrado Maria João. #ecoimcbrt3

  • Marcio_de_Oliveira_Monteiro há 773 dias

    Adorei esse texto, Emília!

    A cara, ainda, da  Educação brasileira, infelizemente, que se faz aos olhos do mundo como um processo democrático de ensino, mas sem uma identidade educacional definida, que aprecia o que é de fora sem valorizar o que tem de melhor de seus pensadores e filósofos educacionais, haja vista Darci Ribeiro, Ruben Alves, Paulo Freire dentre outros.

    Afinal, qual o sentido de educacar para a vida? Quando deixaremos de ter um currículo extenso para vivermos um currículo intenso em que a contextualização, a construção, a sociointeracionalidade não sejam meros discursos políticos partidários para aquisição, corrupção do voto!

    Me vi em alguns momentos nesse menino, que retrata muitos de nós brasileiros que não temos uma Escola da Ponte em nosso universo escolar!

    Ainda apresentamos um discurso futurista, dinâmico, autônomo, crítico ...  mas que se contamina todos os dias com as falácias propostas por pessoas que vêem na Educação, dinheiro, voto, poder, a submissão do oprimido.

    Vergonhoso, mas excelente texto! 

  • Emilia há 773 dias

    Marcio, eu também estive em muitos destes momentos (sou mais velha Laughing).Reitero sua colocação "Ainda apresentamos um discurso futurista, dinâmico, autônomo, crítico ...  mas que se contamina todos os dias com as falácias propostas por pessoas que vêem na Educação, dinheiro, voto, poder, a submissão do oprimido."#ecoimoocbrt3

  • Maria João Spilker há 773 dias

    Olá,

    Não posso deixar de entrar nesta roda. 

    Se bem que tenhamos muitos relatos negativos (e não pensem que é só desse lado do Oceano), o que eu vejo? Desde que tomei contato com a realidade dos professores (sobretudo do ensino fundamental e médio) brasileiros (e isto há mais de uma década) tenho sempre visto algo que gostaria de descrever como a gota no oceano. Mas afinal o oceano é feito de gotas. :-) 

    O que quero eu dizer, vejo muitos professores, cada um à sua maneira e tendo em conta as restrições pessoais, profissionais e da escola, tenta fazer algo. Acredito que muitos irão multiplicar nas suas escolas o que refletiram e aprenderam ao longo deste ou de outro curso.

    O caminho faz-se caminhando. Por vezes gostariamos de chegar rápido, mas nem sempre conseguímos ou nos deixam. O que eu sinto? É que há muitos professores que querem dar o seu melhor em prol de todos os meninos do texto do Emília.

    Vamos a isso?

    MJoão

  • Emilia há 773 dias

    Olá Maria

    Tentamos sim fazer algo. Sempre tive apoio da direção da escola e da orientaçâo pedagógica. Estou sempre mudando a maneira de avaliar meu aluno e nunca fui impedida de querer fazer o melhor.  Na minha opinião,  o problema não está na escola em si, e como o Marcio citou no comentário acima : "...as falácias propostas por pessoas que vêem na Educação, dinheiro, voto, poder, a submissão do oprimido."

    #ecoimoocbrt

  • Marcio_de_Oliveira_Monteiro há 773 dias

    Olá, Maria João. Prazer tê-la nessa discussão que, obviamente, não se esgota.

    Somos diferença e fazemos diferença sim. Todavia há um preceito da Filosofia de que a mudança deve ser Radical e de Profundidade para acontecer realmente. Estamos aguardando por isso. O problema é que precisamos mudar uma cultura, paradigmas construídos de acordo com um cenário de País acostumado com a "falta de Educação". Isso é triste!

    Obvio: façamos nossa parte! Mas esse dito passou a ser o argumento [não seu] brasileiro para encobertar as mazelas que o descaso político vem promovendo no Brasil.

  • Marcio_de_Oliveira_Monteiro há 773 dias

    Maria João, sua imagem retrata o que o nosso filósofo da Educação, nosso mestre Paulo Freire tanto criticou de Educação Bancária.

  • Maria João Spilker há 772 dias

    Olá, Márcio, Emília e Tod@s,

    Entendo bem o que estão relatando. Numa visão mais europeia, sou da opinião de que muitos dos males na educação portuguesa têm a ver com o facto de, a cada nova "cor" de governo, é inicialmente deitado a baixo o que anteriormente foi construído. Na minha muito modesta opiniao, os países escandinávios como seja a Finlândia, estão a ter muito bons resultados na área educacional porque têm tido uma linha que transpassa partidos e politiquisses. E, não menos importante, porque o valor do professor é dado e reconhecido pela sociedade em geral. Parece utopia, não é?

    Mas vou colocar mais uma provocaçãozinha. Já devem conhecer, mas deixo aqui a palestra Sugata Mitra:

     

    https://www.ted.com/talks/sugata_mitra_shows_how_kids_teach_themselves

    []s MJoão

  • Emilia há 772 dias

    Há 24 dias atrás publique um artigo no Blog de Sugata Mitra: 

    “Se um professor pode ser substituído por uma máquina, é porque ele deve ser substituído”Sugata Mitra

    http://portal.aprendiz.uol.com.br/arquivo/2012/02/08/%E2%80%9Cse-um-professor-pode-ser-substituido-por-uma-maquina-e-porque-ele-deve-ser-substituido%E2%80%9D/

    Um grande especialista  em tecnologias educacionais e já esteve em São Paulo ministrando esta palestra

    Ele fez colocações excelentes e um trabalho de campo perfeito. O que necessitamos é uma boa vontade maior dos órgãos ligados a educação. Gostaria que olhassem para a educação com mais atenção e principalmente com respeito. Um investimento maior na educação? Seria possível ?

    O aluno do Monólogo que publiquei relata seu grande problema com a Matemática. Sugata Mitra apresenta uma situação parecida (atual e a história se repete):

    “Como exemplo do sucesso de formular questões interessantes às crianças, ele usou uma pergunta feita para um grupo da Itália:

    "- Como um iPad (tablet da Apple) sabe onde ele está?".

    O resultado da pesquisa dos alunos foi simples: três satélites localizam o iPad, e assim é possível identificar seu lugar no espaço. Segundo Mitra, ensinar as bases da trigonometria, que explicam de outra forma a questão do iPad, não instiga a curiosidade infantil. "Estudar os ângulos de um triângulo dá sono", diz.  #ecoimoocbrt3

  • Andreia_da_Silva há 770 dias

    Sobre o texto" Monólogo Do  Estudante Infeliz"

    Assim como  Emília, sonho com processo educacional direcionado para autonomia do educando,mas infelizmente enquanto a Educação Brasileira estiver atrelada a essa "política imoral" não vejo um futuro muito promissor.Mais felizmente temos  Educadores comprometidos que cumprem com dignidade o ofício que escolheram para suas vidas.