Artefato digital 1. "Para ler a mídia"

 

1. Introdução

 

Em Cultura da Convergência (2006), Henry Jenkins, chama a atenção para o papel fundamental das narrativas midiáticas nas construções sociais do cotidiano:

 Cada um de nós constrói a própria mitologia pessoal, a partir de fragmentos de informações extraídos do fluxo midiático e transformados em recursos através dos quais compreendemos nossa vida cotidiana. (JENKINS.2006, p.30)

 

É neste lugar, em meio as ações do cotidiano onde se constrói a cultura que neste trabalho, chamado “Artefato 1”,  pretendemos desenvolver uma proposta de atividade prática sob a perspectiva das reflexões propostas no curso “Capacitação digital para professores” realizado pela Universidade Aberta de Portugal UAP em cooperação com a Universidade Federal Fluminense UFF /2017.

Dentre os diversos conceitos apresentados, nos voltamos para a noção de “ letramento digital” e em complemento, o “letramento midiático”. A escolha se dá por identificarmos a comunicação como “cimento social” (MAFFESOLI, 2003,p.06), o processo que une e dá  forma a essa sociedade em rede. Assim, colocamos os processos de comunicação nas diferentes mídias como fonte primária para a atividade escolar que aqui propomos e o conceito de letramento midiático como objetivo específico a ser trabalhado.

 

    1. Letramento

Reconhecemos no conceito de “letramento” um amplo campo de debates oferecendo diversas linhas de interpretações. Aqui em nossa proposta de trabalho, utilizamos o conceito a partir da leitura de Magda Soares que sintetiza letramento como “o estado ou condição de indivíduos ou de grupos sociais de sociedades letradas que exercem efetivamente as práticas sociais de leitura e de escrita, participam competentemente de eventos de letramento”. A autora ainda situa indivíduos e grupos nessa condição como “diferenciado estado ou condição de inserção”:

 

(...) é o pressuposto de que indivíduos ou grupos sociais que dominam o uso da leitura e da escrita e, portanto, têm as habilidades e atitudes necessárias para uma participação ativa e competente em situações em que práticas de leitura e/ou de escrita têm uma função essencial, mantêm com os outros e com o mundo que os cerca formas de interação, atitudes, competências discursivas e cognitivas que lhes conferem um determinado e diferenciados estados ou condição de inserção em uma sociedade letrada. (SOARES, 2002, p.145)

 

O conceito enfatiza o pressuposto das habilidades necessárias para uma participação em situações nas quais as práticas de leitura e ou de escrita são fundamentais. Ao transferir estas ações ao mundo das interações digitais que tipo de participação se configura?

 

  1. Letramento digital e/ou midiático[1]

O letramento digital deve ser capaz de desenvolver as capacidades necessárias para a plena participação dos sujeitos no ambiente social, entretanto, apenas as habilidades envolvendo os usos tecnológicos não são o suficiente. É preciso entender que elas propiciam interações nas quais o que são construídas são as concepções simbólicas da cultura, as formas como oferecemos sentidos à nossa existência como sociedade. Essa enorme teia de informação e conhecimento é articulada  no âmbito dos meios de comunicação através da mídia, destacada aqui para além de seu papel de distribuição e compreendida  prioritariamente como sistema cultural.

No ambiente midiático digital onde acontece a participação, são quase infinitas as opções de linguagens que contribuem para a criação de sentidos. Diferentemente do letramento que utiliza como base de conhecimento a relação estática com o papel, no mundo digital ao utilizarmos as tecnologias que disponibilizam o som e a imagem em infinitas correlações e recriações, a construção de significados alcançam uma dimensão nova. O texto, e o hipertexto, na tela se desdobram e transportam qualquer ideia a um mar de possibilidades de significações produzindo novas subjetividades.

Neste cenário de ”mar aberto” é preciso saber qual direção tomar, nesse sentido, o letramento digital de mídia tem a função de dotar o navegante da capacidade de produzir seus próprios mapas de navegação. Para Hague e Willianson (2009, p.29) a participação visa “produzir, receber, analisar, criar e comunicar significado” apoiado em um processo crítico continuado:

 

Digital participation involves applying a set of social literacy practices to digital technology and digital media. These literacy practices involve developing na understanding of the operational, the cultural, the critical and the creative in relation to the use of a wide range of digital technologies and online tools. Digital participation, then, is dependent on having the ability to use technology, media and information appropriately and safely in order to produce, receive, analyse, create and communicate meaning and to continually ask questions about the meaning that is being received and communicated. Possessing critical digital literacy is an essential component of becoming digitally participative. (HAGUE; WILLIAMSON.  2009, p.28) [2]

 

É com base nas ideias introdutórias apresentadas até aqui, onde quisemos sublinhar  o papel da formação crítica na produção de interações midiáticas que passamos à apresentação da proposta de trabalho.

 

Atividade escolar:  “Para ler a mídia”

  1. Descrição

    Atividade realizada dentro da sala de aula e voltada para alunos do primeiro ano do ensino médio e pressuposto de familiaridade com o ambiente digital e a mídia televisiva. É necessário também rede de wi-fi ativa e alguns aparelhos celulares.

 A atividade se desdobra em dois momentos descritos abaixo:

Fase 1.

  1. Objetivo geral: proporcionar um espaço de reflexão para os alunos a partir do tema da construção da imagem de juventude no ambiente digital.

     

  2. Objetivo de aprendizagem: o exercício da reflexão no momento da recepção da imagem no espaço digital se propõe a fornecer ferramentas intelectuais que colaboram para o desenvolvimento de um olhar crítico e, portanto ativo sobre as mensagens apreendidas. As ferramentas trabalhadas são: ouvir o outro, descobrir  o  momento de partilhar sua opinião, estabelecer novos raciocínios a partir de uma ideia colocada e com isso entender como uma ideia cresce e se amplia com a participação do coletivo.

     

  3. Modo da ação: Os alunos são convidados a assistirem (ou reverem) em seus celulares o comercial lançado pela rede varejista de moda C&A para sua campanha da coleção primavera–verão 2016. O acesso ao comercial pode ser feito através da rede de compartilhamento de vídeos Youtube através do link: 

     

  4. https://www.youtube.com/watch?v=44QjXsZtoz

      

  5. Cenário: A sala de aula deve estar organizada em formação de um círculo onde todos tenham contato visual e proximidade com o outro. Na falta de aparelho celular individualizado, serão organizados grupos ou times para assistirem o comercial juntos. Os grupos podem também ser utilizados na hora das respostas do questionário.

     

  6. Conteúdo a ser explorado: o comercial foi escolhido para ancorar a discussão de temas frequentemente presentes na interação dos jovens junto as diferentes mídias: a publicidade, a moda e o consumo. O ponto central é desvendar como estas categorias oferecem imagens que influenciam o comportamento através dos quais a sociedade constrói imagens da juventude.

     

  7. Método: seguiremos um roteiro de perguntas que através dos questionamentos vão ampliando em escalada o alcance do tema e abrindo um elenco de opções para a construção de novos pensamentos.

     

  8. Questionário:

  1. Para você, que imagem de juventude o comercial sugere?

  2. Qual mensagem mais chama a sua atenção?

  3. Você acha que a ação de vestir e trocar de roupa sugere uma ideia de consumo?

  4. Você vê uma relação entre moda, juventude e consumo como apresentado no comercial?

  5. Moda, consumo movimento são imagens que definem o que é juventude?

  6. Na sua leitura, qual a intenção do anunciante (a C&A)?

  7. Você se enxerga nessas imagens?

  8. Em sua opinião, quais os argumentos de convencimento são utilizados no comercial?

     

  1. Ferramentas digitais utilizadas: o celular torna-se a mídia de apresentação da imagem em foco, mas é a participação realizada por outros internautas nos comentários na página do Youtube (www.youtube.com)  que será usada para despertar a percepção da multiplicidade de formas de recepção e interpretação do conteúdo apresentado. Os alunos são convidados a registrarem eles também seu ponto de vista nos comentários e perceberem que tipo de troca os demais internautas oferecem.

     

  2.  Duração da atividade na fase 1: dois tempos de aula.

 

Fase 2.

  1. Objetivo geral: incentivar a descoberta das possibilidades oferecidas pela internet da participação digital a parir de diferentes papeis no que diz respeito à mensagem. Se na fase 1 os alunos são receptores que se aproximam da mensagem através do registro de seus textos nos comentários na página do Youtube, na fase 2 eles se tornam produtores da mensagem através da imagem.

     

  2. Objetivos de aprendizagem: Mobilizar de forma operacional o uso de ferramentas digitais na produção de um produto midiático - a revista digital - experimentando com isso o papel de produtor da mensagem.

     

  3. Modo da ação: no fechamento da atividade com base no que foi discutido, é solicitado ao aluno pesquisar e selecionar ou produzir através de foto no celular uma imagem que em sua opinião representa ser jovem, a juventude.  O caráter autoral da imagem será incentivado. As imagens serão reunidas em um arquivo de compartilhamento on-line. Em seguia, os alunos editaram uma revista/ catálogo que oferecerá um retrato de autoria coletiva do ser jovem para o grupo ali reunido.

     

  4. Conteúdo a ser explorado: Ao produzirem suas próprias ideias e transforma-las em imagens, os alunos tornam-se produtores de uma nova narrativa levando-os a experimentar a criação no espaço da cultura. Assim demonstramos como os meios de comunicação digitais são instrumentos na construção de significados sociais. Sob esta perspectiva, mostraremos que o trabalho realizado e compartilhado se torna mais uma contribuição para a construção social das muitas narrativas em torno do que é a juventude.

     

  5. Ferramentas tecnológicas mobilizadas: sugerimos a utilização da ferramenta de edição para design Canva : www.canva.com

    Como funciona: o programa oferece a possibilidade da edição de diversos materiais de design. As ferramentas mais sofisticadas são pagas através de planos de pagamento mensal, mas no plano básico é gratuito e oferece opções bastante apropriadas para a realização da tarefa. O uso da ferramenta é muito simples, basta entrar e fazer o registro. Em seguida, o administrador da conta monta seu grupo de trabalho através da inserção de e-mail individual. Fica configurado com que ele vai partilhar as escolhas e composição do design. Montado o grupo e definida as opções de acesso para modificação que cada um dos participantes terá sobre o trabalho, o design pode ter início. No lado esquerdo a ferramenta oferece alguns exemplos de layouts de revistas. É preciso ter cuidado para escolher entre aqueles que mostram a etiqueta “grátis”. Depois de escolhido, o usuário pode escolher na barra à esquerda as opções de cores, fundo, tipologias, tamanhos e lugar para cada parte do design. As fotos podem ser acrescentadas baixando a partir do computador do administrador no espaço que diz “suas fotos”. Depois de baixadas são facilmente arrastadas da área de trabalho para o design. Com todas as escolhas fechadas e design finalizado os participantes do grupo podem ter acesso ao design e modifica-lo se assim desejarem. O arquivo pode ser gravado e compartilhado na mídia escolhida. A ferramenta permite a criação de um produto de mídia no formato de criação coletiva já que todos que fazem parte do grupo podem ir opinando e modificando o que está sendo colocado na área de trabalho.

     

  6. Critérios de avaliação sugeridos:  a partir do material de leitura utilizado no curso até aqui, utilizamos o “referencial de competências em TIC para professores”[3] para sugerir os critérios de avaliação do material apresentado.

  1. Criatividade;

  2. Pensamento sistêmico;

  3. Formulação e solução de problemas;

  4. Curiosidade intelectual;

  5. Raciocínio crítico;

     

Notas:

[1] Utilizamos o termo “letramento” como tradução para “literacy” no inglês. Reproduzimos  a tradução feita por Suzana Alexandria em “Cultura da Convergência”. Henry Jenkins; São Paulo: Aleph, 2009 p.235. Em nota de rodapé ela explica: “ Letramento é a tradução do termo inglês “literacy” que pode ser entendido como a condição de ser letrado (não apenas alfabetizado). É o conjunto de práticas que denotam a capacidade de uso de diferentes tipos de material escrito.” Seguimos a tradução por se tratar de contextos e temas na mesma área de discussões aqui utilizadas.

[2] Tradução minha: A participação digital envolve a aplicação de um conjunto de práticas de letramento no uso da tecnologia digital e dos meios de comunicação digital. Essas práticas de letramento envolvem o desenvolvimento de uma compreensão do aspecto operacional, do cultural, da crítica e da criatividade em relação ao uso de uma ampla gama de tecnologias digitais e ferramentas on-line. Participação digital, então, depende de ter a capacidade de usar tecnologia, mídia e informação de forma adequada e segura para produzir, receber, analisar, criar e comunicar significado e para continuamente fazer perguntas sobre o significado do que está sendo recebido e comunicado. Possuir letramento digital crítico é componente essencial para tornar-se digitalmente participativo.

[3] Competências TIC. Estudo de Implementação. Vol. 1 Novembro de 2008. p.74.


Referências

JENKIS, Henry. Cultura da Convergência: A colisão entre os velhos e os novos meios de cominicação. São Paulo: Aleph, 2009.

 MAFFESOLI, Michel. A comunicação sem fim ( teoria pós-moderna da comunicação). Revista Famecos. Porto Alegre, n.20, abril 2003.

SOARES, Magda. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002. Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>


 

 

 

 

 

 




[1] MAFFESOLI, Michel. A comunicação sem fim \9teoria pós-moderna da comunicação). Revista Famecos. Porto Alegre, n.20, abril 2003.

[2] SOARES, Magda. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002. Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>

[3] Utilizamos o termo “letramento” como tradução para “literacy” no inglês. Reproduzimos  a tradução feita por Suzana Alexandria em “Cultura da Convergência”. Henry Jenkins; São Paulo: Aleph, 2009 p.235. Em nota de rodapé ela explica: “ Letramento é a tradução do termo inglês “literacy” que pode ser entendido como a condição de ser letrado (não apenas alfabetizado). É o conjunto de práticas que denotam a capacidade de uso de diferentes tipos de material escrito.” Seguimos a tradução por se tratar de contextos e temas na mesma área de discussões aqui utilizadas.

[4] Tradução minha: A participação digital envolve a aplicação de um conjunto de práticas de letramento no uso da tecnologia digital e dos meios de comunicação digital. Essas práticas de letramento envolvem o desenvolvimento de uma compreensão do aspecto operacional, do cultural, da crítica e da criatividade em relação ao uso de uma ampla gama de tecnologias digitais e ferramentas on-line. Participação digital, então, depende de ter a capacidade de usar tecnologia, mídia e informação de forma adequada e segura para produzir, receber, analisar, criar e comunicar significado e para continuamente fazer perguntas sobre o significado do que está sendo recebido e comunicado. Possuir letramento digital crítico é componente essencial para tornar-se digitalmente participativo.

[5] Competências TIC. Estudo de Implementação. Vol. 1 Novembro de 2008. p.74.

Comentários

  • Emilia há 518 dias

    Muito interessante sua abordagem. Vale lembrar que não só os alunos do 1º ano, mas do 2º e do 3º  deveriam participar desta tarefa. Os jovens se encantam com o mundo dos comerciais,  das propagandas  e vale lembra-los o quanto custa o que eles tanto desejam, fazendo-os refletir sobre o consumismo e de como a mídia os  influencia.  Tudo que nossos jovens querem é definir suas indentidades para serem aceitos por determinado grupo de amigos. Você e seus alunos tem um grande debate pela frente. Eles vão adorar #ecoimoocbrt3

  • Ligia Fonseca há 517 dias

    Obrigada pelo comentário.Smile Concordo que a questão da identidade é fundamental principalmente para alunos nessa fase da vida onde são muitos os incentivos para se consumir os "kits identitários fornecidos pelo mercado" (BAUMAN. 2007,p.66). #ecoimoocbrt3

  • Vitor_Rocio há 239 dias

    A Karla Assis, da equipa do Canva Brasil, sugere que seja usado o link https://www.canva.com/pt_br/